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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Grécia

Pessoas que aqui lêem;
como acho que a maioria sabe, a coisa na Grécia tá o caos. Tentando fugir da mídia oficial, vou tentar (na medida do possível) publicar aqui notícias que eu recebo, numa tentativa muito longínqua de dar suporte às manifestações e ao movimento todo que está acontecendo por lá.
Os dois posts abaixo já são referentes a isso, e ao acontecimento que vitimou fatalmente três pessoas que estavam presas em uma agência bancária atingida por um coquetel molotov.

O que temos a dizer...

[O texto a seguir resume alguns pensamentos iniciais sobre os trágicos eventos de quarta de alguns de nós aqui da Occupied London [After the Greek Riots] Seguem versões em inglês e grego [e agora português] – por favor, espalhem.]

O que temos honestamente a dizer sobre os acontecimentos de Quarta?
O que os eventos de quarta-feira (5 de maio) significam honestamente para o movimento anarquista/anti-autoritário? Como encaramos a morte dessas três pessoas – independentemente de quem tenha causado? Onde nos posicionamos como humanos e como povo na luta? Nós, que não aceitamos coisas como “incidentes isolados” (da polícia ou brutalidade estatal) e que apontamos o dedo, em uma base diária, para a violência exercida pelo Estado e pelo sistema capitalista. Nós, que temos a coragem de chamar as coisas pelo nome, nós que expomos os que torturam imigrantes em quartéis da polícia ou aqueles que brincam com nossas vidas de dentro de escritórios luxuosos e estúdios de TV. Então, o que temos a dizer agora?
Poderíamos nos esconder atrás da declaração emitida pelo Sindicato dos Bancários (OTOE) ou das acusações dos empregados do setor bancário; ou poderíamos dizer que o fato foi que os mortos foram forçados a ficar em um prédio sem proteção contra incêndios – até mesmo trancados. Poderíamos culpar a escória do Vgenopoulos, o dono do banco; ou o quão esse trágico incidente será usado para lançar uma repressão sem precedentes. Qualquer um (que ousou) passar por Exarchia na quarta a noite teve uma idéia clara disso. Mas não é essa a idéia.

A idéia para nós é enxergar que a divisão da responsabilidade recai em nós, em todos nós. Somos todos responsáveis juntos. Sim, estamos certos em lutar com todas as nossas forças contra as medidas injustas que nos são impostas; estamos certos em dedicar toda a nossa força e criatividade para um mundo melhor. Mas como seres políticos, somos igualmente responsáveis por cada uma de nossas escolhas políticas, pelos meios que temos proporcionado e pelo nosso silêncio cada vez que não admitimos nossas fraquezas e nossos erros. Nós, que não agradamos o povo para ganhar votos, nós que não temos interesse em explorar ninguém, temos a capacidade, sob essas trágicas circunstâncias, de sermos honestos com nós mesmos e com os que estão ao nosso redor.

O que o movimento anarquista grego está experimentando no momento é um torpor total. Porque há condições de pressão para alguns pensamentos de auto-crítica que vai machucar, Diante do horror do fato de que as pessoas que morreram estavam do “nosso lado”, o lado dos trabalhadores – trabalhadores que estão em condições de extrema dificuldade que possivelmente teriam escolhido a possibilidade de marchar ao nosso lado se as coisas fossem diferentes em seu local de trabalho – além disso, são também confrontados com passeatas que colocam a vida das pessoas em perigo. Embora (e isso é inquestionável) não houvesse a intenção de matar, esse é um problema essencial que pode gerar muita discussão – alguma discussão a respeito dos alvos que temos e os meios que escolhemos.

O incidente não aconteceu à noite, em alguma ação de sabotagem. Aconteceu durante a maior passeata da história grega contemporânea. E aqui, uma série de questões dolorosas aparecem: em uma passeata de 150.000 a 200.000, sem precedentes nos últimos anos, há realmente a necessidade de alguma violência “a mais”? Quando você vê milhares gritando “queime, queime o Parlamento” e xingando os policiais, outro incêndio em banco tem algo mais para realmente oferecer ao movimento?

Quando o movimento por si só se torna de massas – como o de dezembro de 2008 – o que uma ação pode oferecer, se essa ação excede o limite do que uma sociedade pode aceitar (ao menos no momento atual), ou se essa ação coloca vidas humanas em risco?

Quando saímos às ruas, somos um com as pessoas ao nosso redor, estamos próximos a elas, ao seu lado, com elas – é por isso, que ao fim do dia, o porque de trabalharmos como jumentos escrevendo textos e posters – e nossas próprias cláusulas são o simples parâmetro no muito que converge. Chegou a hora de falarmos francamente sobre violência e examinarmos criticamente a cultura de violência específica que está se desenvolvendo na Grécia nos últimos anos. Nosso movimento não tem se fortalecido por conta dos meios que às vezes usamos, mas mais por conta da nossa articulação política. Dezembro de 2008 não se tornou histórico somente porque milhares pegaram e atiraram pedras e molotovs, mas principalmente por conta de suas características políticas e sociais – e nesse nível, seu legado é rico. É claro que respondemos à violência exercida sobre nós, e assim somos chamados para ao invés de falar sobre nossas escolhas políticas assim como os meios que temos assumido, reconhecendo os nossos limites – e os deles.

Quando falamos de liberdade, isso significa que a cada momento duvidamos do que ontem tínhamos por garantido. Que nos atrevemos a ir até o fim e, evitando alguns clichês políticos, olhar as coisas diretamente nos olhos, como elas são. Está claro que desde que não consideramos a violência como um fim nela mesma, não podemos deixar que ela lance sombras nas dimensões políticas de nossas ações. Não somos assassinos nem santos. Somos parte de um movimento social, com nossas fraquezas e erros. Hoje, ao invés de nos sentirmos fortes depois de uma passeata tão grandiosa, nos sentimos estarrecidos, para dizer o mínimo. Isso fala por si. Devemos tornar essa experiência trágica em uma busca interna e inspirar outra no fim do dia, agindo todos com base em nossa consciência. E o cultivar de tal consciência coletiva é o nosso suporte.

Occupied London

Para os que usam as mortes na Grécia...

Acabei de ouvir sobre os terríveis eventos e estou chocado. Eu acho que é muito bom que o [Blog] After the Greek Riots honre os três mortos e publique a retratação.

Para todas as pessoas, especialmente aquelas que comentam aqui, que usam a morte de três seres humanos para dar vazão aos seus discursos de ódio contra anarquistas, perguntem a si mesmas o seguinte: você já reagiu dessa maneira quando algum imigrante é espancado ou/e até mesmo assassinado pela polícia de Atenas? Você já reagiu assim quando outra dezena ou centena de civis morrem no Iraque, ou Afeganistão ou em qualquer outro lugar desse mundo? Você posta comentários cheios de ódio nas páginas da mídia oficial, pelas dezenas de centenas de pessoas que são mortas por um sistema de poder global econômico irracional em uma contagem diária?
Não? Então talvez você devesse calar a boca e começar a pensar... A não ser que realmente aprove o estado que o mundo se encontra, pois isso lhe proporciona uma TV colorida, um carro, casa própria e bananas baratas. E tudo isso somente pelo preço de ter que olhar para todos os seres humanos como competidores e ameaças em potencial!

Para todos os anarquistas e camaradas de esquerda radicais:

Enquanto não sabemos quem atirou o molotov, devemos definitivamente lutar contra a campanha midiática e política que aponta o dedo ao povo que luta contra sua miséria, devemos também ser bravos o suficiente para admitir que possivelmente foi "um de nós".
Todos os que estão envolvidos em lutas militantes de massa sabem que sempre há a possibilidade de uma tragédia como essa acontecer. Desde que não somos um partido nem qualquer tipo de instituição - e uma revolta popular nunca vai ser - não podemos nunca controlar totalmente a situação. Qualquer um pode causar esse tipo de dano com uma demonstração violenta: agentes de polícia provocadores, fascistas, hooligans, cidadão raivosos ou anarquistas de cabeça quente.

Mesmo que isso tenha sido feito por agentes do Estado ou das classes de cima, nós como anarquistas propiciamos o meio necessário! Não vamos negar isso. Exatamente porque aprendemos enquanto lutamos, exatamente por não querermos ser como um partido, como o Estado e as classes dominantes, como os fascistas, temos que ser honestos, humanos, autocríticos e ainda assim determinados.

Então, é tempo de pensar no que podemos fazer para minimizar o risco e prevenir os danos e até, como agora tragicamente aconteceu, a morte de pessoas não envolvidas.
Enquanto para mim está tudo bem em usar molotovs contra a polícia ou em ações planejadas, deve haver um consenso de não usá-los contra prédios nos quais:

a) Possam haver pessoas;

b) O fogo possa se espalhar para outros edifícios que não tem a ver, como casas residenciais. E todos sabemos que lojas com apartamentos residenciais em cima são atacadas em ações na Grécia hoje e sempre;

Atacar um banco, a loja de uma grande companhia, etc.; é sempre um ato simbólico e deve ser encarado como tal.

Usem pedras, tintas, entrem e destruam tudo se houver a possibilidade. Se usarmos fogo, não podemos controlar o desenrolar, e a mídia e os políticos ficarão felizes em poderem nos retratar como hooligans psicopatas e o simbolismo é o mesmo de qualquer maneira.

Juntar a isso o poder do fogo não vale arriscar a integridade de seres humanos.

Dito isso, toda a minha solidariedade vai aos amigos e camaradas anarquistas e de esquerda radicais na Grécia e todas as pessoas em qualquer lugar que lutam por um mundo livre do capitalismo e cheio de cooperação mútua, no qual a liberdade individual e coletiva são uma só, repletas de vida para todos, é o objetivo da sociedade!

L.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Desejamos uma feliz crise e um ótimo medo novo!"

Meu amigo do Akeldama, o Cris, me enviou também um artigo de sua autoria sobre os movimentos que vem ocorrendo na Grécia desde dezembro do ano passado. É um tanto longo, mas vale a pena a leitura. Para quem não faz a mínima idéia do que estou falando, ao ler o texto, entenderá.


"Desejamos uma feliz crise e um ótimo medo novo!"*
Um pós-escrito sobre as manifestações de dezembro em Atenas.

[publicado no “Anarchist Studies journal, vol.17, no.1, 2009”]


No dia 6 de dezembro um policial atirou e matou um menino de 15 anos em Exarchia, uma região de Atenas muito conhecida por suas raízes libertárias. Dentro de poucas horas a cidade toda estava sendo incendiada por hordas de manifestantes furiosos, cujos alvos era de significância anti-capitalista, anti-estatal e anti-comercial: bancos, revendas de carros, megalojas, delegacias, e até mesmo a gigantesca árvore de Natal na praça Syntagma. As manifestações continuaram por quase três dias, com o conflito entre os manifestantes e as forças de repressão tomando lugar nas ruas entre prédios em chamas e barricadas.

Muitos tentaram achar um paralelo entre essas manifestações e os eventos recentes nos subúrbios franceses ou até mesmo nos eventos de Maio de 68. Apesar de as causas e razões de tais surtos pareçam ser bastante similares, o caso de Atenas deve ser enxergado separadamente pela diferença em um ponto básico: Os que participaram nos ataques de Atenas não foram somente estudantes universitários, trabalhadores ou imigrantes. Eram todos dos grupos citados, mas ainda mais: alunos de escolas, burgueses de meia idade, pessoas com ou sem um background ou uma consciência política – todos fartos das altas taxas de desemprego, pobreza, assassinatos do Estado, repressão e violência; com os padrões de vida e com o isolamento urbano. Além disso, a persistência de muitos academicistas – veteranos dos conflitos de 68 – em comparar negativamente os dias atuais aos deles, e ao demonstrar uma posição elitista ante aos manifestantes, causou uma reação furiosa, expressada em slogans aparentemente apolíticos como “Foda-se o Maio de 68 – Lute Agora!” ou “Vocês destruíram nossas vidas, nós iremos destruir tudo!”

Que conclusões podem ser tiradas das manifestações e qual é o significado desta mobilização para o movimento radical Grego?

Primeiramente, há uma questão de definição. Revolução ou Revolta? Como colocou Max Stirner, revolução é um processo iconoclasta guiado pelo desejo de substituir velhos “ídolos” por outros novos. Em contraste, através da revolta, o “eu” das pessoas está tentando recuperar tudo o que lhe foi roubado. Deste ponto de vista esses dias incendiários de dezembro não foram uma revolução, mas pura revolta. Essa conclusão nos leva a um ponto de crítica duplo – que é a significância interna e externa desses dias para os radicais da Grécia.

O componente interno tem a ver com o movimento em si. Faz muito tempo desde que ativistas anarquistas, anti-autoritários e autônomos foram elogiados por “cidadãos de bem” e por uma porcentagem significante da opinião pública. Parece que as partes mais duras e radicais da vida política grega renovaram suas obrigações com a sociedade, a despeito da constante e negativa propaganda estatal. Somado a isso, todas as marchas, assembléias, e ações alternativas em geral que aconteceram em nome desta revolta geraram novas expectativas e responsabilidades. Faz tempo que facções radicais lidam com lutas anti-capitalistas e anti-estado, de formas mais consistentes e organizadas – além da violência.

O componente externo preocupa em relação à emancipação dos movimentos da custódia da esquerda institucionalizada. Comunistas ortodoxos assim como euro-comunistas e o restante da esquerda alternativa, mas institucionalizada, foram totalmente incapazes de tomar o controle desta extensa ação. Suas ferramentas “científicas” marxistas de análise histórica não puderam prever nem explicar o orgasmo revolucionário que atingiu Atenas (e muitas outras cidades gregas). Como resultado, o Partido Comunista Grego começou a falar sobre os provocadores que sabotaram os objetivos da classe trabalhadora, enquanto a Liga Radical de Esquerda está fazendo declarações ambíguas, com o propósito de ganhar o máximo possível de votos nas próximas eleições.

A revolta recente de Atenas tem muito a ensinar a cada movimento social radical europeu – e não apenas europeu – sobre ação direta, sem porta-vozes e representantes, e que irão constituir o primeiro passo contra o capitalismo e o Estado, sem esquecer a sua abolição. Afinal de contas, como disse Errico Malatesta: “Não alcançaremos a anarquia hoje, nem amanhã, nem em dez séculos. Caminhamos para a anarquia hoje, amanhã, sempre...”

Christos Iliopoulos




*O título em inglês seria "We Wish You a Merry Crisis and a Happy New Fear". No português, o trocadilho perde o sentido.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Περιέργεια!

Se olharem atentamente, no menu ao lado, onde ficam os blogs que eu leio, vai ter um em grego. Antes que pensem que é para eu me achar, ou qualquer coisa do tipo, esclareço que ele é de um grupo anarcocristão da grécia (o Akeldama), com o qual comecei a manter um contato, ainda superficial. Pois bem, eles me passaram o blog, e lá fui eu dar uma olhada.

Obviamente, era tudo em grego. Há!

Entretanto, munido de muito otimismo, fui ao meu grande amigo Google Translator. Ajustando de grego para português, não é que deu para entender??? Obviamente a tradução não sai perfeita, mas dá pra pegar o contexto do post em si.

Em um dos posts, eles falavam sobre a presença de imigrantes em terras gregas, mostravam-se favoráveis a esses, o que me levou a pensar como deve ser diferente a luta em países de "primeiro mundo", ao menos em alguns aspectos. Lá eles tem que lutar pró-imigrantes, lutar por pessoas que não conhecem, que o único vínculo é o de humanismo e direitos humanos, enquanto aqui, lutamos pelos emigrantes por quase um sentimento fraterno, de simpatia, de saber o que é viver no lado de baixo do equador e muitas vezes ter que ir para outro país por conta de melhores condições.

Hoje uma nova perspectiva se abriu na minha cabeça. Gosto disso. E passei a respeitar ainda mais esses gregos loucos.